Café I
Tomar uma xícara de café tem tanto de afetuoso. Passava os fins de semana no sítio da minha vó – Sítio 10 Irmãos – em Laranjeiras, aqui em Sergipe. Lá, numa destas horas depois do almoço, vinha o café.
Minha vó ia pra cozinha e fervia a água; arrumava o coador, lavava a garrafa do café velho. Todas as tias se reuniam na cozinha, e era aquela gritaria e risos e conversas.
Café II
Naquele cacarejar alto e alegre das mulheres de minha vida, eu sentava caladinha na soleira da porta, ciscando o pé na terra.
Quando a água fervia, e elas gritavam “a água, ói que a água vai secar!”, a avó Maria, a Maria de Vavá, coava o café, cada tia pegava as xícaras, as colheres, o açúcar, as bolachas, as broas; os copos de vidro, tinha que ser de vidro, ou ainda as canecas de metal, as que queimavam os dedos com o café quente.
Eu sentia o cheiro. O odor me levantava, me guiava até a mesa e, caladinha, dividia a cadeira com a minha mãe. Naquele dia eu tomei o cafezinho, comi as bolachinhas; de repente, minha mãe olhou pra mim e riu.
Apesar de tomar café com leite desde que me entendo por gente, aquele dia foi especial. Eu tomava parte da mesa do café da tarde; havia crescido mais um pouquinho, e entrava no grupo de mulheres mais próximo de mim.
Café III
Anos depois, eu tomava café sozinha, para estudar, pintar, escrever, ou apenas ler. Tomava café com as minhas melhores amigas, na mesa da cozinha, no chão da sala, tendo idéias, trabalhando ou apenas rindo, rindo mesmo.
Conheci nos trabalhos - museus, livrarias e escritórios da vida - a máquina de café expresso; capuchino, mokachino, latte, café orgânico... café com cigarros, café com bala de menta, cafezinho de cinqüenta centavos, na rua.
Café IV
Adoro fazer meu próprio café, a qualquer hora. Café pra acordar, café pra dormir. Também tomo muito chá, mais suave. Às vezes, encho a xícara de café e tomo só um pouquinho. Às vezes, só o cheiro me satisfaz. O ritual de esquentar a água, lavar a garrafa do café velho... a penas uma história afetuosamente comum.